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Empresa inova com adesivos especiais à base de água

Parece até milagre: um líquido que, ao secar, molda-se ao espaço onde foi aplicado, impede a passagem de ar e outros líquidos, servindo como cola para cerâmicas, madeiras, borrachas, plásticos e vidros. E não é a tradicional supercola.
 
A diferença desse adesivo está no fato de ser completamente isento de solventes derivados de hidrocarbonetos aromáticos, compostos orgânicos voláteis e isocianatos - que fazem mal à saúde e degradam o meio ambiente. O produto é à base de água.
 
Outros selantes também são fabricados em um galpão com cerca de 1.300 metros quadrados na cidade de Taboão da Serra, na Grande São Paulo, que abriga o projeto de sucesso da engenheira química Wang Shu Chen, diretora da Adespec - Adesivos Especiais. Essa já é a segunda sede industrial da empresa cultivada desde 2001 nos corredores do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Cietec-Ipen), onde ainda está o laboratório para pesquisas em andamento.
 

Os investimentos na nova sede, incluindo a aquisição de maquinário importado, chegaram a R$ 2 milhões - parte aportada pela Rio Bravo, por meio de um contrato de participação societária no valor de R$ 5 milhões (capital de risco), e outra parte vinda dos próprios lucros da empresa. Essa iniciativa permitiu que a Adespec quadruplicasse sua capacidade produtiva. A empresa espera faturar R$ 50 milhões até 2012. Segundo a empresa, investimentos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) também possibilitaram que seu faturamento crescesse dez vezes desde 2007.
 
A fábrica de Taboão da Serra começou a funcionar em julho de 2006. De seus reatores, envasadores e misturadores nasce o adesivo à base de água - um líquido branco e viscoso que tem levado a Adespec a disputar um grande mercado da indústria química, dividindo espaço com outras fabricantes tradicionais.
 
Dentre os produtos chamados ecológicos - porque respeitam o meio ambiente, já que são à base de água -, um dos destaques é o adesivo batizado "Pesilox FixTudo". Ele é resultado de cinco anos de pesquisas financiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e cola qualquer tipo de material, além de satisfazer as exigências da IS0 11.600 para uso na construção civil.
 
Cietec, Ipen, Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT) e Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) também apoiaram o projeto com a Fapesp, em seu programa voltado à pequena empresa inovadora - o PIPE.
 
Fórmula secreta
 
A Adespec já lançou dez produtos no mercado - cada um com seu propósito específico e uma característica peculiar. O primeiro, de 2003, ganhou o nome de "Prego Líquido". Segundo a Adespec, é um adesivo especialmente desenvolvido para pregar peças, quadros e molduras em paredes. Pode colar até vidros nas paredes.

O IPT realizou os ensaios físicos com o produto - de resistência à tração, ao impacto, de impermeabilidade e até de envelhecimento acelerado, com raios ultravioleta. "Sem esses testes, não seria possível caracterizar essa nova tecnologia", conta Chen. Mas como o adesivo é feito? Isso, Chen não responde.
 
O "Prego Líquido" foi uma espécie de efeito colateral dos frutos da pesquisa financiada pelo PIPE que teve como resultado principal o "Pesilox FixTudo". Chen também guarda essa receita a sete chaves. Conta apenas que o adesivo é um polímero feito a partir de derivados de sílica e que ela o formulou especialmente para a construção civil. "Não patenteei o produto para não revelar sua fórmula", diz, "mas registrei a marca".
 
À prova de água e de tráfego intenso de pessoas
 
Quem usa a Estação Luz do Metrô paulistano pode já ter pisado no produto da Adespec. A Companhia do Metropolitano de São Paulo comprou o Pesilox para fixar placas táteis - usadas para os cegos se orientarem - sobre o piso das plataformas. A resistência à água foi um dos motivos que levaram o Metrô a usá-lo. Em contato com a umidade do ar, o Pesilox se solidifica, formando uma espécie de borracha flexível à prova de água que une materiais diferentes. "A fixação é resultado de uma ligação covalente", lembra Chen, sobre as propriedades físico-químicas do produto. A fórmula secreta do Pesilox é caracterizada pela capacidade de compartilhamento de um ou mais pares de elétrons entre seus átomos e os de outra superfície ou material.
 
O Pesilox levou cinco anos para ganhar fórmula definitiva e consumiu R$ 850 mil do PIPE. O apoio da Fapesp permitiu à empresa ter o domínio de todas as etapas da tecnologia e conhecer todos os usos aprovados no mundo.
 
As fases do PIPE
 
Na primeira fase, Chen desenvolveu a viabilidade técnica e comercial do produto. Determinou fórmulas para alcançar as propriedades físico-químicas que lhe interessavam. Uma vez de posse de uma fórmula ideal, Chen comparou seu produto com outros à base de poliuretanos e silicone. Fez testes-piloto até chegar ao processo de fabricação. Na Fase II, o financiamento foi para o estudo de aplicações na indústria e na construção civil. O resultado foi uma nova classe de selantes não tóxicos e ecológicos. Ao contrário de outros selantes, o da Adespec ganha elasticidade depois de seco. Por isso, os materiais colados não sofrem rachaduras ou rupturas causadas por vibrações, movimentações e envelhecimento. O produto tem secagem rápida e neutra em toda a superfície aplicada, não precisa de misturas na aplicação e não forma bolhas, mesmo se aplicado em locais expostos a altas temperaturas ou à umidade.
 
Inofensivo à saúde e mais aderente
 
A busca por um adesivo que não prejudicasse o organismo humano foi uma obsessão pessoal de Wang Chen. Depois de 20 anos trabalhando em indústrias como Brascola, Petroquímica de Camaçari e Henkel-Loctite (fabricante da Super Bonder), ela se viu diante de um problema de saúde. Em meados do ano 2000, teve uma súbita redução do nível de células brancas no sangue - por exposição continuada aos solventes usados nos processos de fabricação, derivados de petróleo e muito voláteis. A aspiração é o que causa a diminuição da contagem de glóbulos brancos - chamada leucopenia. Desde então, Chen passou a estudar a relação desses solventes com o organismo humano e com o ambiente. A doença a fez usar toda a sua experiência e conhecimento para criar um adesivo alternativo e não prejudicial à saúde de quem o manuseia.
 
Nascida à frente da concorrência
 
A classe de solventes que causaram a doença de Chen está sendo banida das colas e adesivos em todo o mundo - inclusive no Brasil. Aí está a vantagem competitiva da Adespec: a empresa nasceu sob medida para fabricar produtos livres de compostos orgânicos voláteis. Enquanto as empresas veteranas procuram investir em pesquisa e desenvolvimento e em mudanças na linha de produção, a Adespec foi criada para esse mercado "limpo".
 
Um bom exemplo é a resolução da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que determina a substituição das substâncias voláteis presentes nos adesivos, especialmente na cola de sapateiro - usada como entorpecente. A decisão da Anvisa vem no esteio de um movimento que ganha força em todo o mundo. A Europa implanta medidas para banir os solventes e derivados, como já fez o Estado da Califórnia, nos Estados Unidos. As mudanças já podem ser percebidas inclusive no aumento da produção de adesivos à base de água no Brasil.
 
O acordo com a Eternit
 
A Adespec calcou sua estratégia comercial nesse movimento de substituição de adesivos à base de solventes por adesivos à base de água. A empresa trabalha para conquistar o mercado corporativo e aqueles clientes que considera essenciais para garantir acesso a consumidores diretos - como os fabricantes de materiais de construção. Planejou 2006 como o ano de entrada no mercado de consumo de massa e, de lá para cá, a carteira tem aumentado consideravelmente. Entre seus clientes figuram a Cebrace-Saint-Gobain (fabricante de vidros planos e espelhos), com quem tem contrato para o fornecimento exclusivo de colas e selantes a Brasilit-Decorlit e a Dorma (umas das maiores fabricantes mundiais de molas).
 
Com a Brasilit (que junto com a Eternit forma uma joint-venture para a produção de telhas e caixas d´água de fibrocimento), a Adespec firmou um acordo para o fornecimento de uma massa adesiva e selante para ser usada nas juntas de placas de cimento. A massa é aplicada aos novos sistemas de construção civil que empregam pré-moldados de aço e placas de concreto e gesso. Engenheiros da empresa mostraram-se satisfeitos com o acordo, uma vez que o produto da Adespec venceu praticamente em todos os quesitos de análise de resultado: rentabilidade, resistência e facilidade de aplicação.
 
Como moeda de troca, a Adespec adquiriu acesso ao canal de distribuição da Eternit, que totaliza cinco mil pontos de venda em todo o País. A tática rendeu bons resultados e garantiu o acesso aos consumidores finais, já que a empresa precisa ganhar a confiança de quem põe a mão na massa: um exército de empreiteiros e trabalhadores da construção que já lançam mãos dos produtos da Adespec.
 
Faturamento
 
A Adespec tem hoje cerca de 30 funcionários diretos e gera mais de 50 postos de trabalho indiretos, em geral concentrados nas equipes de representantes comerciais e marketing. O parque industrial instalado e financiado por capital de risco advindo de fundos de investimentos privados tem capacidade para produzir 50 toneladas de adesivos. A empresa fechou 2007 com faturamento de R$ 3 milhões. "Nossa missão é desenvolver a tecnologia nacional e gerar empregos", afirma Chen, que nasceu em Taiwan e chegou ao Brasil com apenas oito anos de idade.
 
Gigantes químicos
 
De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), o mercado global de adesivos fatura um volume de recursos na marca de US$ 27 bilhões por ano. A fatia brasileira nesse mercado é de apenas 1,5%. Apesar de estar pronta para atender à exigência de um produto "limpo", Chen ainda tem o desafio de vencer as barreiras de preço e qualidade do mercado de colas e adesivos. O Cietec e a Fapesp ajudaram-na a construir o caminho da sala de pesquisa ao mercado e a confiar no próprio projeto.
 
O professor Ary Plonski conheceu Chen durante a entrevista para seleção de novos "residentes" no Cietec. Acompanhou a evolução da pesquisa de Chen e o lançamento da linha de adesivos e selantes. Ele não esconde o orgulho de ver o sucesso da empresa. "Após atingir um novo patamar de desenvolvimento que a está profissionalizando, internacionalizando e capitalizando, verifico, com alegria, que estava correta a percepção inicial: é um empreendimento vencedor", conclui Plonski.

Fonte: Notícia Publicada em:
Unicamp 31/10/2008 às 10:28
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